segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Ter ou não ter, eis a questão!

Nós não temos carro.
Ultimamente isso tem sido uma questão para mim, porque pela primeira vez podemos tê-lo.
É bem verdade que hoje, com as condições que são oferecidas de parcelamentos e afins, quase qualquer pessoa pode comprar um carro. E quase todas as pessoas compram, pois o vêm como um item de primeira necessidade.
Nós nunca pensamos assim, sempre priorizamos outras aquisições - quase todas bem menos duráveis -, e por isso, até hoje, não quisemos um carro.
Mas, nos últimos tempos, a possibilidade financeira de comprá-lo com certa facilidade, associada a recorrentes viagens para o litoral e, também, à idade (e peso) da Pietra Maria, tem me feito buscar argumentos para me render à tentação de ser motorizada e, principalmente, autônoma!
Essa questão da autonomia é, sem dúvida, uma das mais pesadas a favor do veículo próprio. O problema não é o fato de o transporte público ser coletivo. Mas com o passar dos anos e uma criança no colo a gente fica menos tolerante para esperar no ponto, ficar em pé e esmagada, e não poder transitar com liberdade à noite (e, aqui, se associa ao fato de não haver transporte público em qualquer horário, o problema da segurança).
E quando faz parte da sua rotina sair de São Paulo, a questão do transporte público se torna  mais dramática! Não é à toa que em cidades do interior e litoral do Estado de São Paulo motos e, principalmente, bicicletas se tornam o principal meio de transporte da maioria das pessoas de baixa renda. E aí vemos famílias inteiras sobre uma moto, mulheres com crianças circulando de bicicleta pelos acostamentos das estradas, e outras situações de alto risco que são corriqueiras na vida de muita gente.
Eu sou uma pessoa culpada e odeio ser incoerente. Sempre critiquei com veemência esse "sonho-de-consumo-pequeno-burguês", e agora tento, a qualquer custo, criar uma lógica convincente e irrefutável para o ato consumista. Além de buscar vencer a culpa de ter algo "caro" num país onde tanta gente passa fome.
Eu sofro de "comunismo universitário"! Quero fingir que sou pobre, que não tenho necessidades fúteis, que me identifico mais com o favelado do que com o milionário, que faço parte da classe trabalhadora, que me recuso a explorar a força de trabalho alheia, que vou ficar fora da sociedade de consumo enquanto todos não tiverem acesso aos bens materiais, que não tenho raiva do fdp que me roubou porque ele é uma vítima da sociedade...
É tudo mentira! Sou uma burguesinha hipócrita e desejo ardentemente jogar as tralhas no carro, na garagem de casa, em São Paulo, e só descer na casa da praia. Fico sonhando com uma empregada que venha de segunda à sexta e uma babá que permita que eu tenha compromissos fora do horário de aula da Pietra. Quero uma cozinheira que me sirva refeições leves e balanceadas, e também um personal trainer, pra eu ficar magra e gostosa. Penso em como seria bom ter alguém que escolhesse as minhas roupas. E o quanto seria legal gastar R$ 1.000,00 no salão de beleza pra manter pele, cabelo e unhas impecáveis. Sem falar no quanto eu gostaria de dizer: "a MINHA massagista", "o MEU ginecologista", "a pediatra DA Pietra", "o acumputurista DO meu marido". Também ficaria bem mais feliz se a Pietra gostasse da escola em que estuda e se eu sentisse que a educação que ela está recebendo é focada nas relações humanas, nas artes, em um desenvolvimento crítico e autônomo... Sem falar no desejo incontrolável de morar em um condomínio fechado com câmeras e homens de terno preto suando de baixo do sol e garantindo a minha segurança!
Mas escondo todos esse desejos infames! E me sinto uma heroína da resistência quando conto que não tenho plano de saúde, que a Pietra nasceu de parto "normal" em um hospital público depois de todo o pré-natal feito no Posto de Saúde. Tenho orgulho de chocar os pais das criancinhas com quem a minha filha faz amizade num final de tarde na praia quando digo que sempre descemos pro litoral de ônibus, porque não temos carro. Me sinto uma fracassada quando admito que tenho uma faxineira que limpa a minha casa uma vez por semana e, por isso tento compensar, fingindo que ela é uma amiga, alguém como eu, que rala muito e ganha pouco. Também tenho vergonha de dizer que a escola da Pietra é particular, sempre faço questão de acrescentar a essa informação que ela estava inscrita na creche municipal, mas que nunca a chamaram, e que como eu TINHA que trabalhar acabei SENDO OBRIGADA a colocá-la em uma escolinha paga, mas que, infelizmente, não tenho condições de colocá-la na escola que eu gostaria, e nesse momento conto alguns dos absurdos que se sucedem no seu cotidiano escolar. Adoro receber os amigos na minha casa e oferecer bebida e comida feita por mim, deixar a porta aberta para os convidados e criticar a cerca elétrica da vizinha e o fato de o bairro estar sendo alvo das grandes construtoras que demolem casas e constróem prédios, mas não conto pra ninguém que quando o Daniel viaja eu coloco a Pietra pra dormir no meu quarto e tranco todas as portas da casa, imaginando que até o bandido arrombar cada uma eu vou ter tempo de fugir, já que eu tenho diversas rotas de fuga da minha própria casa, uma para cada tipo de invasor!




Diante de tamanha crise de identidade e confusões sobre de que maneira viver para melhor educar, sinto, de súbito, uma felicidade sincera ao saber, profundamente, que minha filha está aprendendo a levar apenas o que pode carregar e, portanto, a reconhecer bem o que é realmente necessário!