Estou lendo o Best Seller “Crianças francesas não fazem
manha”.
Antes de saber que o livro era um campeão de vendas,
pude imaginar, pelo título. Peguei-o na
estante da livraria por curiosidade. Fazendo cara de preconceito para deixar
claro aos que, por acaso olhassem para mim, que não era o tipo de literatura
que normalmente me atraía.
Rindo com certa ironia exageradamente demonstrativa passei
os olhos pelo primeiro capítulo, descrente. E de repente estava sentada no chão
da livraria, chocada por encontrar ideias tão semelhantes às minhas acerca, não
da educação francesa – que obviamente não tenho a menor ideia do que se trate –
mas do “modus vivendi” da classe média intelectualizada americana (=brasileira.
Triste que sejamos tão americanizados!).
Não resisti, comprei-o! E estou devorando-o com o mesmo
vigor que li os três principais livros do Paulo Coelho na adolescência, antes
de saber que deveria odiá-lo se quisesse merecer uma vaga entre os cults
intelectuais.
Continua me encantando menos o elogia aos franceses do que a
crítica aos americanos (lê-se brasileiros) – com exceção do comentário que
associa o fato de as portas do metrô, em Paris, abrirem um pouco antes de o
trem parar totalmente, com a ideia de que os cidadãos franceses são tratados
como adultos (eu amei isso!!!!).
Sim, superprotegemos nossos filhos, submetemo-nos a eles,
divulgamos o sofrimento da abnegação materna como prova de dedicação e amor verdadeiro,
abandonamos ou pelo menos diminuímos a importância de todas as outras áreas da
vida em função da maternidade, e – mesmo que não admitamos – não vemos a
criação dos filhos como uma etapa divertida e agradável da vida (ainda que deixemos
claro que seja importante, grandiosa, poética...).
Ao concordar com tudo isso, mesmo usando a primeira pessoa
do plural, não posso negar que me sinto diferente – e me vanglorio! Desde cedo
eu e o Daniel não temos empregados ou familiares que nos auxiliem nos cuidados
com a Pietra, portanto, sempre entendemos que seria ela que se adaptaria à
nossa rotina e não nós a dela e que não nos sacrificaríamos por ela, pois ter
pais exaustos e infelizes não haveria de ser positivo para a sua educação.
Portanto, pelo menos na teoria, eu estava passando imune no
quesito super mãe destruída e infeliz. Mas, de repente, eu me deparo com uma
surpresa!
Logo após o capítulo de apresentação, a autora aborda a questão
do sono. As crianças francesas costumam dormir a noite toda a partir dos DOIS MESES
de vida, mesmo as que mamam no peito!!!!
Minha filha tem 3 anos e meio, e até hoje raramente passa sem
acordar uma ou algumas vezes durante a noite.
Até mais ou menos os três meses ela acordava inúmeras vezes
para mamar e mamava por muito tempo (chegando a 4 horas seguidas), até pegar no
sono, ainda no peito, e voltar para o berço (por alguns minutos...).
Até 1 ano
e meio ela acordava algumas vezes durante à noite para mamar por alguns
minutos, em absolutamente livre demanda!!! Já exausta, decidi tirar as mamadas
da noite, com exceção da última do dia, essencial para que ela pegasse no sono.
Nas primeiras noites ela acordou e chorou até desistir – confesso que não sofri
muito, pois estava realmente convicta de que já tinha lhe dado tudo o quanto eu
podia.
E, enfim, com 2 anos e alguns meses, ela parou de mamar, sem muito
esforço – conforme já contei num post anterior.
A questão, é que a essa altura ela já estava viciada em dormir
comigo, e assim é, até hoje: Eu me deito com ela, e ali permaneço, até que ela
pegue no sono – algumas vezes depois de mim, que acabo ficando por lá mesmo! E caso eu volte para o meu quarto ela provavelmente acorda, no meio da noite, e vai para
a nossa cama, o que significa noites mal dormidas para todos, menos para ela,
que se esparrama pelo colchão, sem cerimônia!!!!
Apesar de ficar cansada com essa situação, e de preferir, obviamente, que ela, ao sentir sono, fosse sozinha para a cama e dormisse, como uma criança francesa, não foi essa a questão que me fez sentir profundo pesar por não tê-la educado para isso. Afinal, ao contrário do que eu pensava, fica óbvio que eu me dispus sim ao sacrifício para provar a minha dedicação materna! O que me chocou mesmo nas explanações propostas
por Pamela Druckerman foi a evidência de que a nossa tentativa de suprir todas
as necessidades dos filhos não só nos esgotam e deprimem, mas principalmente impedem
a eles de aprenderem coisas por si próprios, e os tornam, obviamente,
inseguros!
A partir dos dois meses, mais ou menos, o bebê começa a ser
capaz de fazer o ciclo do sono, de maneira autônoma. Quer dizer, quando sai do
“sono pesado”, ele acorda, e antes de voltar a dormir vive um momento de
angústia e ansiedade, natural diante da novidade que é dormir; mas, se não for
interceptado por um peito ou uma mamadeira nervosos, deve pegar no sono
novamente, sem qualquer ajuda e, depois de algumas noites, o período de choro
entre cada ciclo de sono diminui, até cessar, e o bebê passa a dormir de
maneira contínua, tranquilamente.
E essa é a minha terrível surpresa!
Eu impedi a minha filha de ter noites tranquilas de sono!
Eu, que estou aqui escrevendo esse texto às dez pras duas da manhã. Que tenho
insônia desde que me conheço por gente. Que bem sei o valor de uma boa noite de
sono.
Eu, com a minha culpa por achar que talvez não tivesse
bastante leite devido a uma cirurgia estética de redução das mamas feita aos 17
anos, somada à resignação aprendida que determina que amamentar é muito difícil
e requer sacrifício e noites em claro, jogava-me sobre a minha pobre criaturinha
ávida por aprender a dormir e a impedia de o fazer, enfiando-lhe o peito pela
boca, assim que escutava o primeiro resmungo na madrugada!
E nem sei mais o que dizer...
P.S. - Já vou pra mais da metade do livro, e recomendo, sem
preconceitos!