sexta-feira, 30 de agosto de 2013

O Caos da Infância


Disse o Jung, disse o Bachelard, disse uma filósofa contemporânea de quem não me lembro o nome agora, e certamente disseram e dirão muitos e muitos outros por aí:

Nada é real, inventamos – ou imaginamos – tudo!

E eu acredito nisso e acredito em mais: estamos imaginando coisas terríveis, destrutivas, angustiantes, tristes, dolorosas.

É hora de começarmos a nos aproveitar do fato de que nada é concreto e, portanto, nada é imutável, para começarmos a mudar tudo, pois está tudo errado!

E tudo não é só essas coisinhas políticas, sociais, culturais, que geram umas guerrinhas, umas revoluçõezinhas, umas mercadoriazinhas artísticas. Tudo é tudo mesmo!

E como temos que começar por algum lugar, e eu resolvi falar sobre isso, dou o primeiro palpite:

Vamos começar por parar de ensinar aos nossos filhos que existe um tempo contínuo e que as relações são causais.

Essa é, sem dúvida, uma forma precária, para não dizer, covarde, de imaginar o mundo!

Não há ordem! E temos medo do caos. Mas nossos filhos não têm!

Pietra pega o gibi e começa a contar para mim uma história que eu acabei de ler para ela. Ela tenta me copiar, começando do começo, e seguindo a ordem dos quadrinhos, numa narrativa linear em que um acontecimento gera o seguinte. Mas logo é tomada pelo instinto natural de quebrar cronologia e lógica causal, e começa a pular alguns quadrinhos, passar para a página seguinte antes de terminar a atual, voltar para quadrinhos passados, mudar de história e retornar à mesma logo depois.

Eu me sinto tentada a ensinar-lhe a forma CERTA de contar. Mas seguro as minhas mãos e amordaço a minha boca, com os olhos estatelados de pânico, enquanto ela segue feliz em sua efusão de imagens instantâneas e poéticas!

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Mães brasileiras não deixam seus filhos aprenderem...


Estou lendo o Best Seller “Crianças francesas não fazem manha”.

Antes de saber que o livro era um campeão de vendas, pude imaginar, pelo título. Peguei-o na estante da livraria por curiosidade. Fazendo cara de preconceito para deixar claro aos que, por acaso olhassem para mim, que não era o tipo de literatura que normalmente me atraía.

Rindo com certa ironia exageradamente demonstrativa passei os olhos pelo primeiro capítulo, descrente. E de repente estava sentada no chão da livraria, chocada por encontrar ideias tão semelhantes às minhas acerca, não da educação francesa – que obviamente não tenho a menor ideia do que se trate – mas do “modus vivendi” da classe média intelectualizada americana (=brasileira. Triste que sejamos tão americanizados!).

Não resisti, comprei-o! E estou devorando-o com o mesmo vigor que li os três principais livros do Paulo Coelho na adolescência, antes de saber que deveria odiá-lo se quisesse merecer uma vaga entre os cults intelectuais.

Continua me encantando menos o elogia aos franceses do que a crítica aos americanos (lê-se brasileiros) – com exceção do comentário que associa o fato de as portas do metrô, em Paris, abrirem um pouco antes de o trem parar totalmente, com a ideia de que os cidadãos franceses são tratados como adultos (eu amei isso!!!!).

Sim, superprotegemos nossos filhos, submetemo-nos a eles, divulgamos o sofrimento da abnegação materna como prova de dedicação e amor verdadeiro, abandonamos ou pelo menos diminuímos a importância de todas as outras áreas da vida em função da maternidade, e – mesmo que não admitamos – não vemos a criação dos filhos como uma etapa divertida e agradável da vida (ainda que deixemos claro que seja importante, grandiosa, poética...).

Ao concordar com tudo isso, mesmo usando a primeira pessoa do plural, não posso negar que me sinto diferente – e me vanglorio! Desde cedo eu e o Daniel não temos empregados ou familiares que nos auxiliem nos cuidados com a Pietra, portanto, sempre entendemos que seria ela que se adaptaria à nossa rotina e não nós a dela e que não nos sacrificaríamos por ela, pois ter pais exaustos e infelizes não haveria de ser positivo para a sua educação.

Portanto, pelo menos na teoria, eu estava passando imune no quesito super mãe destruída e infeliz. Mas, de repente, eu me deparo com uma surpresa!

Logo após o capítulo de apresentação, a autora aborda a questão do sono. As crianças francesas costumam dormir a noite toda a partir dos DOIS MESES de vida, mesmo as que mamam no peito!!!!

Minha filha tem 3 anos e meio, e até hoje raramente passa sem acordar uma ou algumas vezes durante a noite.

Até mais ou menos os três meses ela acordava inúmeras vezes para mamar e mamava por muito tempo (chegando a 4 horas seguidas), até pegar no sono, ainda no peito, e voltar para o berço (por alguns minutos...).
Até 1 ano e meio ela acordava algumas vezes durante à noite para mamar por alguns minutos, em absolutamente livre demanda!!! Já exausta, decidi tirar as mamadas da noite, com exceção da última do dia, essencial para que ela pegasse no sono. Nas primeiras noites ela acordou e chorou até desistir – confesso que não sofri muito, pois estava realmente convicta de que já tinha lhe dado tudo o quanto eu podia.
E, enfim, com 2 anos e alguns meses, ela parou de mamar, sem muito esforço – conforme já contei num post anterior.
A questão, é que a essa altura ela já estava viciada em dormir comigo, e assim é, até hoje: Eu me deito com ela, e ali permaneço, até que ela pegue no sono – algumas vezes depois de mim, que acabo ficando por lá mesmo! E caso eu volte para o meu quarto ela provavelmente acorda, no meio da noite, e vai para a nossa cama, o que significa noites mal dormidas para todos, menos para ela, que se esparrama pelo colchão, sem cerimônia!!!!
 
Apesar de ficar cansada com essa situação, e de preferir, obviamente, que ela, ao sentir sono, fosse sozinha para a cama e dormisse, como uma criança francesa, não foi essa a questão que me fez sentir profundo pesar por não tê-la educado para isso. Afinal, ao contrário do que eu pensava, fica óbvio que eu me dispus sim ao sacrifício para provar a minha dedicação materna! O que me chocou mesmo nas explanações propostas por Pamela Druckerman foi a evidência de que a nossa tentativa de suprir todas as necessidades dos filhos não só nos esgotam e deprimem, mas principalmente impedem a eles de aprenderem coisas por si próprios, e os tornam, obviamente, inseguros!

A partir dos dois meses, mais ou menos, o bebê começa a ser capaz de fazer o ciclo do sono, de maneira autônoma. Quer dizer, quando sai do “sono pesado”, ele acorda, e antes de voltar a dormir vive um momento de angústia e ansiedade, natural diante da novidade que é dormir; mas, se não for interceptado por um peito ou uma mamadeira nervosos, deve pegar no sono novamente, sem qualquer ajuda e, depois de algumas noites, o período de choro entre cada ciclo de sono diminui, até cessar, e o bebê passa a dormir de maneira contínua, tranquilamente.

E essa é a minha terrível surpresa!

Eu impedi a minha filha de ter noites tranquilas de sono! Eu, que estou aqui escrevendo esse texto às dez pras duas da manhã. Que tenho insônia desde que me conheço por gente. Que bem sei o valor de uma boa noite de sono.

Eu, com a minha culpa por achar que talvez não tivesse bastante leite devido a uma cirurgia estética de redução das mamas feita aos 17 anos, somada à resignação aprendida que determina que amamentar é muito difícil e requer sacrifício e noites em claro, jogava-me sobre a minha pobre criaturinha ávida por aprender a dormir e a impedia de o fazer, enfiando-lhe o peito pela boca, assim que escutava o primeiro resmungo na madrugada!

E nem sei mais o que dizer...
 
 

P.S. - Já vou pra mais da metade do livro, e recomendo, sem preconceitos!