Pessoas que manifestam atitudes politicamente corretas em redes sociais podem se tornar verdadeiros heróis do dia para a noite.
Vivemos esse tempo em que frases prontas e atitudes mais prontas ainda definem "de que lado você está".
E eu desconfio dos polos... prefiro considerar a esfera inteira... onde não há lados!
O ser humano é complexo e essa mania novelística de simplificar tudo de maneira maniqueísta é muito triste, e extremamente perigosa quando se manifesta de maneira fundamentalista, o que tem se tornado bem frequente com a força que a massa virtual dá para o indivíduo concreto que, antes, se inibia um pouco dos seus achismos, sem saber se encontraria algum amparo das suas ideias rasas e violentas ou se seria repudiado por todos ao manifestar sua falta de conhecimento de maneira agressiva.
E não pense que o fundamentalismo está apenas nos conservadores, que em geral apresentam poucos argumentos e defendem uma nova inquisição por dia. Muitos liberais, gente cool e intelectualizada, podem se mostrar ainda mais violentos em sua pedância retórica, baseada em conceitos e sem qualquer questionamento.
Lembro-me de quando uma jornalista dondoca "lôra" (nossa, quantos rótulos!), comentou em seu perfil do facebook, na época da polêmica do Mais Médicos, que as médicas cubanas tinham cara de empregadas domésticas e, em seguida, questionou se teriam mesmo cabedal para atender pessoas. Imediatamente, a pobre coitada, ignorante de tudo, recebeu uma saraivada de xingamentos, sendo que a grande parte manifestava indignação com o fato de a moça dizer que alguém tem cara de empregada doméstica, onde já viu! não existe cara de empregada doméstica! Poucos a questionaram sobre a relação entre a cara de uma pessoa e o conhecimento que ela tem. E só uns raros propuseram uma reflexão interessante: sim, os médicos cubanos tem cara de empregadas domésticas BRASILEIRAS!, porque no Brasil a grande maioria das pessoas negras ("ou quase negros de tão pobres...") não têm a menor chance de trilhar os caminhos reservados à elite para determinadas profissões (as que têm status social!) e são obrigadas a fazer o servicinho sujo e desvalorizado que os ricos (ou quase ricos de tão metidos...) não querem fazer!
(Cabe observar que tais serviços já nem são tão desvalorizados, pois é notável a melhoria da auto-estima do brasileiro das classes menos abastadas... - eu tinha escrito pobre, mas fiquei com medo da repercussão - ...nos últimos anos, o que reflete diretamente no valor das diárias das faxineiras e das empreitadas dos pedreiros; enfim, "essa gente" percebeu que sabe fazer o que ninguém quer fazer, e que portanto, numa lógica simples, pode cobrar o quanto quiser pelos seus serviços: "minha diária é R$ 180,00 doutora, é baratinho, metade do preço da sua consulta de 20 minutos, mas se a senhora não quer pagar, tudo bem, abre mão de um dia de trabalho, e lava a sua própria privada!" - fica fácil entender porque a classe média está tão irritada com a nossa política!)
Agora, diante das manifestações de ódio dos politicamente corretos contra a pobre vendedora da Animale, na Rua Oscar Freire, que "expulsou" um menino negro, filho adotivo de um americano branco, que estava parado com o pai, na entrada da loja, estou revivendo a sensação que tive com o caso citado anteriormente.
A pobre vendedora pensou que o menino era um vendedor de rua porque ele é negro. Será que isso é tão grave?! Quantos não pensariam o mesmo? No Brasil, mulheres negras têm cara de empregada doméstica, meninos negros têm cara de vendedores de bala no farol. A gente sabe disso e a hipocrisia só nos desvia do problema real. Se o menino negro não fosse filho do americano branco e rico, mas fosse um pobre favelado vendendo made-in-chinas na Oscar Freire, ninguém teria ficado indignado por ele ter sido expulso da frente de uma loja chique em uma rua chique de São Paulo (aliás, isso deve acontecer todos os dias, mas não há ninguém importante reclamando os direitos desses negros pobres filhos de negros pobres mesmo!)
Então, eu queria dizer ao Jonathan Duran, pai do menino que está no centro dessa polêmica, que se ele tem medo que o filho seja sumariamente executado pela polícia militar, por ser negro, caso cometa algum delito bobo na adolescência, como acontece com muitos e muitos jovens negros e pobres no nosso país, ele deveria começar a questionar as suas próprias atitudes, que legitimam a atitude da vendedora impulsiva e inexperiente (conforme satisfações dadas pela loja em resposta à indignação de todos diante do incidente) que ele criticou.
Queria dizer a ele que não é preciso levar o filho aos Estados Unidos para que ele veja "gente marrom" (hahahahahaha! os Estados Unidos é um dos países mais racistas do mundo, onde os negros vivem em guetos isolados e alisam os cabelos para ficarem menos negros - ops, qualquer semelhança com o nosso país é mera coincidência!), basta que ele amplie os seus horizontes para além da Oscar Freire, onde o trabalho de um vendedor de rua não é digno de dividir espaço com uma calça jeans que custa mais do que um moleque ganha com os seus chig lings em um ano de trabalho.
Talvez, quando gente rica e sem preconceitos, que não especifica preferência por cor de pele ao preencher o formulário de adoção, passar a ocupar os mesmos espaços que a grande maioria dos negros que não tiveram o privilégio de serem milagrosamente salvos de sua sina social por um generoso americano branco, as vendedoras da Oscar Freire não sejam mais orientadas a expulsar ninguém da porta das lojas onde trabalham, seja branco, negro, pobre ou rico. E nenhum policial militar se sinta previamente impune de qualquer represália ao executar sumariamente uma pessoa na rua, por achar que ela não têm importância social e, portanto, não terá a vida reclamada por nenhum americano branco, cheio de voz e apoiadores nas redes sociais!
P.S. - A minha filha, Pietra, frequentou uma escola particular do bairro que eu morava em São Paulo a partir de um ano e meio de vida. Ela não tinha colegas negros. Depois, aos três anos, ela foi para uma creche municipal, e logo nas primeiras semanas me disse: "Mãe, eu não gosto da Laís" (a Laís era a sua melhor amiga na escola...). E eu perguntei: "por que, filha?". E ela: "Porque ela tem a cara preta!". Hoje, aos cinco anos, ela continua frequentando uma escola pública, e não me lembro de ter ouvido dela, novamente, qualquer frase que denotasse uma associação entre o gostar e a cor da pele...
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