Alguém esqueceu um bonequinho do homem-aranha na nossa
pousada e ele foi parar no baú da Pietra, com seus outros brinquedos. Um dia um amiguinho dela veio aqui e pegou o boneco emprestado. A
mãe dele perguntou pra ela se era presente e ela disse que sim. Depois, ela se
arrependeu, e chorou, como diante da morte, com aquela perda tão singela.
Eu tentei tantos argumentos que cansei e acabei apelando!
“Chega! Com tanta criança por aí que não tem nem o que comer
direito, você não pode ficar fazendo um escândalo desses por causa de um
brinquedo que você nem usava!”
Demorou um tempo pra ela voltar no assunto, no meio de outra
conversa.
“Mãe, tem criança que até morre de fome?”
“Olha, filha, no nosso país isso já não acontece muito...
mas muitas crianças ainda não podem comer uma comida de qualidade todos os
dias, como você pode...”
Mais um tempo depois.
“Mãe, não seria bom que as pessoas que têm comida, quando
não quisessem mais comer, deixassem o resto da comida delas pra quem não tem?”
Eu pensei um pouco.
“Você gostaria de ter que
comer o resto da comida das outras pessoas?”
“Se eu fosse pobre, sim!”
“Não seria melhor arrumar um jeito de não haver pessoas
pobres, e todos poderem escolher o que comer?”
“Mas por que algumas pessoas são pobres?”
Mais pensamento.
“Eu acho que é porque algumas pessoas são muito ricas.”
“Elas querem ter muito dinheiro pra comprar tudo o que
gostam?”
“Não, elas querem muito dinheiro pra comprar o que gostam e
o que não gostam também... elas têm tanto dinheiro que compram coisas que elas
nem conseguem usar, e aí algumas pessoas não têm dinheiro para comprar o que
precisam!”
Mais um longo tempo.
“Mãe, eu tive uma ideia! E se a gente colocasse uma placa na nossa porta escrito assim: ‘é de graça!’? Aí as pessoas que não
têm dinheiro pra comprar comida podem comer o que quiserem!”
Eu ri e fiquei sem graça.
“Mas se ninguém pagasse pela comida, como nós poderíamos
comprar mais ingredientes para continuar cozinhando?”
Curto e profundo pensar.
“Já sei! A gente coloca duas placas, numa a gente coloca que
é de graça para quem não tem dinheiro e na outra que quem tem dinheiro precisa
pagar!”
Aos 5 anos, a minha filha deduziu o que eu demorei anos pra
entender. E seria um belo final pra essa história, se eu não quisesse justificar a
minha covardia.
“O problema, minha filha, é que talvez as pessoas que têm dinheiro
não quisessem pagar pelas que não têm, e não dissessem que têm... como a gente
ia saber quem tem e quem não tem?”
E estraguei tudo...
“Ah, mãe! A gente põe outra placa: fale a verdade, se não a
gente chama a polícia!”