Lendo dentre as homenagens a Antonio Cândido um trecho de
uma entrevista concedida por ele em que responde afirmativamente à pergunta: “O
senhor é socialista?”, e segue falando das conquistas do socialismo das quais
todos gozamos sem reconhecer, vou legitimando uma sensação antiga verbalizada em uma
frase simplista: somos todos criancinhas!
A criança tem dificuldade de se entender como parte de um
processo histórico. É egocêntrica e acha que tudo diz respeito a ela. Por
isso mesmo não percebe que todas as regras a que precisa se submeter para o
convívio social são decorrentes de uma trajetória cultural assim como todos os
direitos comportamentais que têm são também o fim de uma linha histórica.
Lembrei-me de um grupo específico de alunos do fundamental
I, de uma escola particular em que ministrei aulas de teatro. Eles tinham um
comportamento totalmente adestrado pelas regras da escola. Ao mesmo tempo em
que, subversivos como a idade manda, tentavam burlar aquelas regras que enxergavam como algo natural, já que EU nunca tinha imposto nada a eles. Aos
poucos eu comecei a dizer que não precisavam levantar a mão pra falar e nem
pedir pra ir ao banheiro ou beber água. Afirmei que não iria gritar com eles
pra que ficassem quietos e que
não ia usar de nenhum recurso de poder pra tentar falar. Também informei que
não ia proibir celulares. Eles mal podiam acreditar. Nossos encontros eram
assim: os alunos passavam a maior parte do tempo no celular, falavam todos ao
mesmo tempo em altíssimo volume e saíam da sala constantemente. E eles mal podiam
acreditar na liberdade que tinham, ficavam deslumbrados com o caos
descontrolado e autorizado por um adulto que costumava ser a figura de
poder e controle.
Aos poucos, foram ficando exaustos... lembro-me
perfeitamente do dia em que uma das alunas me pediu, literalmente, para que
desse um grito e resolvesse aquela bagunça!
Eles pediram o autoritarismo! Não estavam prontos para a
liberdade. Confesso que, a partir de então, passei a me utilizar de alguns dos
elementos de poder que me eram autorizados pela função que exercia. Até porque
também eu não estava pronta para essa liberdade toda. Não sabia mais o que
fazer com aquele caos e sentia que não demoraria muito pra instituição me
espirrar dali por justa causa! Foi um alívio aquele pedido da minha aluna. Eles
é quem estavam pedindo que eu respeitasse a regra pré-estabelecida. Não estavam
dispostos a criarem as próprias regras! E eu podia me respaldar naquele pedido
pra agir do jeito conhecido e eficaz para manter a ordem e produzir!!!
A experiência foi curta, mas muito rica. Imagino que pra eles
também. Mas pra mim com certeza! Muitas coisas que me passaram depois dessa vivência e
muitas coisas que vi acontecerem, para além da minha esfera pessoal, puderam
ser lidas pelos óculos que adquiri depois desse episódio! Não estamos prontos
para a liberdade. Vemos tudo o que existe como algo natural, sejam as coisas
que nos oprimem sejam as que nos libertam, pois não queremos assumir a
responsabilidade de conquistar o que desejamos; e por isso não podemos nos
dar ao luxo de reconhecer as conquistas que vieram da organização e da luta
consciente dos nossos iguais - dos poucos que assumiram sua responsabilidade
sobre o mundo e sobre os processos históricos. A maioria de nós continua
confortavelmente presa às religiões e seus deuses inacessíveis que nos impõem
tudo o que vivemos. Não estamos prontos para a luta e para a liberdade que pode
decorrer dela! Delegamos felizes a nossa liberdade para uns poucos que nos
oprimem e exploram e, como pagamento nos dão o que bem entendem e nós
agradecemos aliviados.