sábado, 3 de junho de 2017

Somos Todos Criancinhas


Lendo dentre as homenagens a Antonio Cândido um trecho de uma entrevista concedida por ele em que responde afirmativamente à pergunta: “O senhor é socialista?”, e segue falando das conquistas do socialismo das quais todos gozamos sem reconhecer, vou legitimando uma sensação antiga verbalizada em uma frase simplista: somos todos criancinhas!

A criança tem dificuldade de se entender como parte de um processo histórico. É egocêntrica e acha que tudo diz respeito a ela. Por isso mesmo não percebe que todas as regras a que precisa se submeter para o convívio social são decorrentes de uma trajetória cultural assim como todos os direitos comportamentais que têm são também o fim de uma linha histórica.

Lembrei-me de um grupo específico de alunos do fundamental I, de uma escola particular em que ministrei aulas de teatro. Eles tinham um comportamento totalmente adestrado pelas regras da escola. Ao mesmo tempo em que, subversivos como a idade manda, tentavam burlar aquelas regras que enxergavam como algo natural, já que EU nunca tinha imposto nada a eles. Aos poucos eu comecei a dizer que não precisavam levantar a mão pra falar e nem pedir pra ir ao banheiro ou beber água. Afirmei que não iria gritar com eles pra que ficassem quietos e que não ia usar de nenhum recurso de poder pra tentar falar. Também informei que não ia proibir celulares. Eles mal podiam acreditar. Nossos encontros eram assim: os alunos passavam a maior parte do tempo no celular, falavam todos ao mesmo tempo em altíssimo volume e saíam da sala constantemente. E eles mal podiam acreditar na liberdade que tinham, ficavam deslumbrados com o caos descontrolado e autorizado por um adulto que costumava ser a figura de poder e controle.
Aos poucos, foram ficando exaustos... lembro-me perfeitamente do dia em que uma das alunas me pediu, literalmente, para que desse um grito e resolvesse aquela bagunça!

Eles pediram o autoritarismo! Não estavam prontos para a liberdade. Confesso que, a partir de então, passei a me utilizar de alguns dos elementos de poder que me eram autorizados pela função que exercia. Até porque também eu não estava pronta para essa liberdade toda. Não sabia mais o que fazer com aquele caos e sentia que não demoraria muito pra instituição me espirrar dali por justa causa! Foi um alívio aquele pedido da minha aluna. Eles é quem estavam pedindo que eu respeitasse a regra pré-estabelecida. Não estavam dispostos a criarem as próprias regras! E eu podia me respaldar naquele pedido pra agir do jeito conhecido e eficaz para manter a ordem e produzir!!!

A experiência foi curta, mas muito rica. Imagino que pra eles também. Mas pra mim com certeza! Muitas coisas que me passaram depois dessa vivência e muitas coisas que vi acontecerem, para além da minha esfera pessoal, puderam ser lidas pelos óculos que adquiri depois desse episódio! Não estamos prontos para a liberdade. Vemos tudo o que existe como algo natural, sejam as coisas que nos oprimem sejam as que nos libertam, pois não queremos assumir a responsabilidade de conquistar o que desejamos; e por isso não podemos nos dar ao luxo de reconhecer as conquistas que vieram da organização e da luta consciente dos nossos iguais - dos poucos que assumiram sua responsabilidade sobre o mundo e sobre os processos históricos. A maioria de nós continua confortavelmente presa às religiões e seus deuses inacessíveis que nos impõem tudo o que vivemos. Não estamos prontos para a luta e para a liberdade que pode decorrer dela! Delegamos felizes a nossa liberdade para uns poucos que nos oprimem e exploram e, como pagamento nos dão o que bem entendem e nós agradecemos aliviados.  

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Por uma educação libertária

“Ela é ótima professora. É tipo linha-dura! Muito rigorosa e exigente!”

“Professora, pode brigar com ele sim! Se deixar ele só faz o que quer!”

“Uniforme é lei, o meu filho, se pudesse, eu mandava de farda!”

“Escola não é lugar de brincar!”

“Minha mãe me tirou do teatro, professora, porque minhas notas estão baixas!”

“Isso é uma reunião ou um bate-boca!? Vamos deixar a professora terminar de ler o papel logo porque eu tenho que voltar pro serviço!”

“Não tinha ninguém lá e eu mandei ela trancar o portão com o cadeado. Eu estou aqui há 10 anos! Não vou lhe responder o motivo do cadeado, faça a solicitação por escrito!”

Essas são algumas das frases que me vêm à cabeça, sem fazer muito esforço de memória, que já ouvi no contexto escolar desde que frequento reuniões de pais, como mãe, e instituições de ensino como professora de teatro (“Não vale nota!”).

Tenho acumulado angústias que, na última reunião de pais em que estive, explodiram num insight apavorante: queremos que nossos filhos/alunos sofram!!!!

Muitas vezes o desejo é explícito, muito nobremente mascarado de preocupação com o futuro do pequeno... “Tem que sofrer pra aprender!”. Mas quase sempre fica (mal) camuflado por um ódio contido daquela infância livre e cheia de desejos e potencial que nos humilha com a sua exibição libertina, alheia às regras e dogmas que nos forjaram com doloroso cerceamento.

Não é de hoje que me ficou evidente a semelhança entre o sistema educacional e a disciplina militar. Achava que era uma sequela da ditadura, ainda tão recente em nossa história. Porém, percebo agora que o motivo maior dessa obsessão pela disciplina e pela ordem está mais associada a uma espécie de vingança que nós, adultos, queremos empreender sobre as nossas crianças.

E assim me ocorre uma frase de um sábio senhor que, infelizmente, nunca escutei em âmbitos escolares, mas que venho repetindo nos mais diversos contextos: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor!”. É disso que se trata! Aceitamos tudo o que nos é imposto, tudo o que nos é tirado! Aceitamos comer quando nos mandam, chorar quando nos deixam, vestir essa ou aquela roupa. Aceitamos parar de correr, parar de gritar, parar de querer! Aceitamos ficar sentados, ficar na fila, ficar quietos. Fazemos a lição até terminar a apostila, mantemos o uniforme limpo como deve ser!, comemos a merenda toda para ganhar uma bolinha de açúcar e corante como recompensa por rasparmos o prato.

(Ah! Essas pequenas droguinhas que ganhamos ao longo do nosso desenvolvimento, que bênção são o açúcar e a internet com seus desenhos e jogos viciantes! O pão e o circo da criançada de hoje! E eles ficam quietos e não nos atormentam nas poucas horas que temos para gozar do nosso lazer! Que raramente prioriza as crias! “Eu faço tudo por esse menino, mas ele é um ingrato!”.)

E depois, continuamos aceitando.

O emprego mal remunerado e pouco criativo. Horas no ônibus (ou no carro, que seja! “ah, o que seria de mim sem o ar condicionado?!”). Horas realizando aquela atividade inócua, cujo produto concreto é inacessível a quem produz. “Pelo menos eu tenho um trabalho digno!”... afinal, “o trabalho dignifica o homem...” (estava faltando um clichê clássico!).

A esperança da aposentadoria mantendo o corpo em moto-contínuo. (E o que será de nós agora!? O sonho de liberdade mais distante! Muitos morrerão antes de terminarem a pena a que foram condenados! Quase cinquenta anos de trabalhos forçados sem gozar jamais dos dias de ócio prometidos aos que aceitarem a sina!)

E seguimos aceitando.

O casamento cansativo e frio. Cada um para o seu lado do sofá. Cada um para o seu lado da cama. Meias palavras. Estúpidas e cheias de desdém. Nos sagrados fins de semana, (continuamos amansados por outras versões das droguinhas infantis), homens reunidos no boteco (ou no bar), mulheres na igreja (ou no shopping). Cada grupinho munido dos melhores adjetivos para classificarem os parceiros. E em alguma ocasião “especial”, a família reunida forma as rodinhas ali mesmo, na laje, ou na varanda gourmet, sem qualquer prejuízo da conversa fiada, entremeada por gritos de... “para de correr, seu peste!!!”

E tanta aceitação precisa ter uma recompensa realmente valiosa para que o gado continue respeitando o limite da cerca, mais leve 20 vezes que o seu corpo esquecido da força que tem! E nada mais recompensante do que impor a um terceiro tudo aquilo que nos foi imposto!




Se não sofrer aprende... aprende muito, aprende mais! Por isso “esse moleque só aprende o que não presta”! Porque o que “presta” não presta pra ele, não presta pra nada que sirva no mundo concreto onde ele (e nós) vive(mos)!  Porque o que não presta é divertido e o que presta é chato e tem que ser aprendido com muita dor, com muita alienação! E eles vão seguir assim, matando aula, fazendo escondido, aprontando um monte de “arte”... até cansar de apanhar e se conformar e se tornar mais um de nós... ou... até desistir e trocar a pena da vida comum, do "trabalho digno", por uma vida menos ordinária e o risco de uma prisão menos abstrata...