sexta-feira, 26 de maio de 2017

Por uma educação libertária

“Ela é ótima professora. É tipo linha-dura! Muito rigorosa e exigente!”

“Professora, pode brigar com ele sim! Se deixar ele só faz o que quer!”

“Uniforme é lei, o meu filho, se pudesse, eu mandava de farda!”

“Escola não é lugar de brincar!”

“Minha mãe me tirou do teatro, professora, porque minhas notas estão baixas!”

“Isso é uma reunião ou um bate-boca!? Vamos deixar a professora terminar de ler o papel logo porque eu tenho que voltar pro serviço!”

“Não tinha ninguém lá e eu mandei ela trancar o portão com o cadeado. Eu estou aqui há 10 anos! Não vou lhe responder o motivo do cadeado, faça a solicitação por escrito!”

Essas são algumas das frases que me vêm à cabeça, sem fazer muito esforço de memória, que já ouvi no contexto escolar desde que frequento reuniões de pais, como mãe, e instituições de ensino como professora de teatro (“Não vale nota!”).

Tenho acumulado angústias que, na última reunião de pais em que estive, explodiram num insight apavorante: queremos que nossos filhos/alunos sofram!!!!

Muitas vezes o desejo é explícito, muito nobremente mascarado de preocupação com o futuro do pequeno... “Tem que sofrer pra aprender!”. Mas quase sempre fica (mal) camuflado por um ódio contido daquela infância livre e cheia de desejos e potencial que nos humilha com a sua exibição libertina, alheia às regras e dogmas que nos forjaram com doloroso cerceamento.

Não é de hoje que me ficou evidente a semelhança entre o sistema educacional e a disciplina militar. Achava que era uma sequela da ditadura, ainda tão recente em nossa história. Porém, percebo agora que o motivo maior dessa obsessão pela disciplina e pela ordem está mais associada a uma espécie de vingança que nós, adultos, queremos empreender sobre as nossas crianças.

E assim me ocorre uma frase de um sábio senhor que, infelizmente, nunca escutei em âmbitos escolares, mas que venho repetindo nos mais diversos contextos: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor!”. É disso que se trata! Aceitamos tudo o que nos é imposto, tudo o que nos é tirado! Aceitamos comer quando nos mandam, chorar quando nos deixam, vestir essa ou aquela roupa. Aceitamos parar de correr, parar de gritar, parar de querer! Aceitamos ficar sentados, ficar na fila, ficar quietos. Fazemos a lição até terminar a apostila, mantemos o uniforme limpo como deve ser!, comemos a merenda toda para ganhar uma bolinha de açúcar e corante como recompensa por rasparmos o prato.

(Ah! Essas pequenas droguinhas que ganhamos ao longo do nosso desenvolvimento, que bênção são o açúcar e a internet com seus desenhos e jogos viciantes! O pão e o circo da criançada de hoje! E eles ficam quietos e não nos atormentam nas poucas horas que temos para gozar do nosso lazer! Que raramente prioriza as crias! “Eu faço tudo por esse menino, mas ele é um ingrato!”.)

E depois, continuamos aceitando.

O emprego mal remunerado e pouco criativo. Horas no ônibus (ou no carro, que seja! “ah, o que seria de mim sem o ar condicionado?!”). Horas realizando aquela atividade inócua, cujo produto concreto é inacessível a quem produz. “Pelo menos eu tenho um trabalho digno!”... afinal, “o trabalho dignifica o homem...” (estava faltando um clichê clássico!).

A esperança da aposentadoria mantendo o corpo em moto-contínuo. (E o que será de nós agora!? O sonho de liberdade mais distante! Muitos morrerão antes de terminarem a pena a que foram condenados! Quase cinquenta anos de trabalhos forçados sem gozar jamais dos dias de ócio prometidos aos que aceitarem a sina!)

E seguimos aceitando.

O casamento cansativo e frio. Cada um para o seu lado do sofá. Cada um para o seu lado da cama. Meias palavras. Estúpidas e cheias de desdém. Nos sagrados fins de semana, (continuamos amansados por outras versões das droguinhas infantis), homens reunidos no boteco (ou no bar), mulheres na igreja (ou no shopping). Cada grupinho munido dos melhores adjetivos para classificarem os parceiros. E em alguma ocasião “especial”, a família reunida forma as rodinhas ali mesmo, na laje, ou na varanda gourmet, sem qualquer prejuízo da conversa fiada, entremeada por gritos de... “para de correr, seu peste!!!”

E tanta aceitação precisa ter uma recompensa realmente valiosa para que o gado continue respeitando o limite da cerca, mais leve 20 vezes que o seu corpo esquecido da força que tem! E nada mais recompensante do que impor a um terceiro tudo aquilo que nos foi imposto!




Se não sofrer aprende... aprende muito, aprende mais! Por isso “esse moleque só aprende o que não presta”! Porque o que “presta” não presta pra ele, não presta pra nada que sirva no mundo concreto onde ele (e nós) vive(mos)!  Porque o que não presta é divertido e o que presta é chato e tem que ser aprendido com muita dor, com muita alienação! E eles vão seguir assim, matando aula, fazendo escondido, aprontando um monte de “arte”... até cansar de apanhar e se conformar e se tornar mais um de nós... ou... até desistir e trocar a pena da vida comum, do "trabalho digno", por uma vida menos ordinária e o risco de uma prisão menos abstrata...