“Ela é ótima professora. É tipo linha-dura! Muito rigorosa e
exigente!”
“Professora, pode brigar com ele sim! Se deixar ele só faz o
que quer!”
“Uniforme é lei, o meu filho, se pudesse, eu mandava de
farda!”
“Escola não é lugar de brincar!”
“Minha mãe me tirou do teatro, professora, porque minhas
notas estão baixas!”
“Isso é uma reunião ou um bate-boca!? Vamos deixar a
professora terminar de ler o papel logo porque eu tenho que voltar pro
serviço!”
“Não tinha ninguém lá e eu mandei ela trancar o portão com o
cadeado. Eu estou aqui há 10 anos! Não vou lhe responder o motivo do cadeado,
faça a solicitação por escrito!”
Essas são algumas das frases que me vêm à cabeça, sem fazer
muito esforço de memória, que já ouvi no contexto escolar desde que frequento
reuniões de pais, como mãe, e instituições de ensino como professora de teatro
(“Não vale nota!”).
Tenho acumulado angústias que, na última reunião de pais em que
estive, explodiram num insight apavorante: queremos que nossos filhos/alunos
sofram!!!!
Muitas vezes o desejo é explícito, muito nobremente
mascarado de preocupação com o futuro do pequeno... “Tem que sofrer pra
aprender!”. Mas quase sempre fica (mal) camuflado por um ódio contido daquela
infância livre e cheia de desejos e potencial que nos humilha com a sua
exibição libertina, alheia às regras e dogmas que nos forjaram com doloroso
cerceamento.
Não é de hoje que me ficou evidente a semelhança entre o
sistema educacional e a disciplina militar. Achava que era uma sequela da
ditadura, ainda tão recente em nossa história. Porém, percebo agora que o
motivo maior dessa obsessão pela disciplina e pela ordem está mais associada a
uma espécie de vingança que nós, adultos, queremos empreender sobre as nossas
crianças.
E assim me ocorre uma frase de um sábio senhor que,
infelizmente, nunca escutei em âmbitos escolares, mas que venho repetindo nos
mais diversos contextos: “quando a educação não é libertadora, o sonho do
oprimido é se tornar o opressor!”. É disso que se trata! Aceitamos tudo o que
nos é imposto, tudo o que nos é tirado! Aceitamos comer quando nos mandam,
chorar quando nos deixam, vestir essa ou aquela roupa. Aceitamos parar de
correr, parar de gritar, parar de querer! Aceitamos ficar sentados, ficar na
fila, ficar quietos. Fazemos a lição até terminar a apostila, mantemos o
uniforme limpo como deve ser!, comemos a merenda toda para ganhar uma bolinha
de açúcar e corante como recompensa por rasparmos o prato.
(Ah! Essas pequenas droguinhas que ganhamos ao longo do
nosso desenvolvimento, que bênção são o açúcar e a internet com seus desenhos e
jogos viciantes! O pão e o circo da criançada de hoje! E eles ficam quietos e
não nos atormentam nas poucas horas que temos para gozar do nosso lazer! Que
raramente prioriza as crias! “Eu faço tudo por esse menino, mas ele é um
ingrato!”.)
E depois, continuamos aceitando.
O emprego mal remunerado e pouco criativo. Horas no ônibus
(ou no carro, que seja! “ah, o que seria de mim sem o ar condicionado?!”).
Horas realizando aquela atividade inócua, cujo produto concreto é inacessível a
quem produz. “Pelo menos eu tenho um trabalho digno!”... afinal, “o trabalho
dignifica o homem...” (estava faltando um clichê clássico!).
A esperança da aposentadoria mantendo o corpo em
moto-contínuo. (E o que será de nós agora!? O sonho de liberdade mais distante!
Muitos morrerão antes de terminarem a pena a que foram condenados! Quase
cinquenta anos de trabalhos forçados sem gozar jamais dos dias de ócio
prometidos aos que aceitarem a sina!)
E seguimos aceitando.
O casamento cansativo e frio. Cada um para o seu lado do
sofá. Cada um para o seu lado da cama. Meias palavras. Estúpidas e cheias de
desdém. Nos sagrados fins de semana, (continuamos amansados por outras versões
das droguinhas infantis), homens reunidos no boteco (ou no bar), mulheres na
igreja (ou no shopping). Cada grupinho munido dos melhores adjetivos para
classificarem os parceiros. E em alguma ocasião “especial”, a família reunida
forma as rodinhas ali mesmo, na laje, ou na varanda gourmet, sem qualquer
prejuízo da conversa fiada, entremeada por gritos de... “para de correr, seu
peste!!!”
E tanta aceitação precisa ter uma recompensa realmente
valiosa para que o gado continue respeitando o limite da cerca, mais leve 20
vezes que o seu corpo esquecido da força que tem! E nada mais recompensante do
que impor a um terceiro tudo aquilo que nos foi imposto!
Se não sofrer aprende... aprende muito, aprende mais! Por
isso “esse moleque só aprende o que não presta”! Porque o que “presta” não
presta pra ele, não presta pra nada que sirva no mundo concreto onde ele (e nós) vive(mos)! Porque o que não presta é divertido e o que
presta é chato e tem que ser aprendido com muita dor, com muita alienação! E eles vão seguir assim,
matando aula, fazendo escondido, aprontando um monte de “arte”... até cansar de
apanhar e se conformar e se tornar mais um de nós... ou... até desistir e
trocar a pena da vida comum, do "trabalho digno", por uma vida menos ordinária e
o risco de uma prisão menos abstrata...