sábado, 5 de novembro de 2011

Sofrimento de ser mãe

Eu sempre fui medrosa.

Mas depois de me tornar mãe, tornei-me uma psicótica!

Todos os dias, em algum momento do dia, me pego mergulhada em um esforço profundo para acreditar que o sofrimento é parte da vida e que vivos e mortos somos a mesma coisa: apenas uma ínfima parte do universo que se configura como indivíduo e depois se dissolve no todo maravilhoso novamente.

Mas não consigo... eu duvido! E sinto-me quase em pânico, antecipando na minha imaginação doentia, o dia em que a Pietra descobrir que há morte. E pior, que há morte sempre, em todas as idades. E que há mortes trágicas. E que há dores muito piores que as que ela sente quando rala o joelho e sofrimentos muito mais terríveis do que não querer tomar banho. E que há pessoas que causam essas dores e esses sofrimentos a outras pessoas. E que nada garante que algo muito horrível não vá acontecer com ela ou com as pessoas que ela ama. E que ficar pensando em tudo isso é a forma mais avassaladora de dor, de sofrimento e de morte em vida... e que ela deve acreditar que o sofrimento é parte da vida e que vivos e mortos somos a mesma coisa: apenas uma ínfima parte do universo que se configura como indivíduo e depois se dissolve no todo maravilhoso novamente...

Às vezes, olho para ela brincando concentradamente, mergulhada no tempo da ação concreta em que está envolvida, e sinto uma culpa atroz pelo fim iminente da sua inocência e início da consciência de si e do mundo que a cerca; e desejo, ardentemente, que ela seja uma pessoa mais segura que eu e possa me dizer, um dia, com leveza, só de passagem, sem dar qualquer importância: "Mamãe, eu conheço todo o mal do mundo e, ainda assim, a vida para mim é um presente!"

Absoluta conexão

Há mais de um mês eu fui assaltada perto da minha casa, mais ou menos no horário de levar a Pietra para a escola.
Alguns minutos depois do assalto, eu a levei para a escola, a pé, como faço quase sempre.
No dia seguinte, meu marido foi viajar e passou um mês fora, e eu passei a levá-la à escola sozinha todos os dias.
Pouco mais de uma semana depois do assalto eu comecei a desenvolver uma "crise persecutória", e achar que todos os seres humanos, em especial se estivessem em cima de uma moto, pretendiam me assaltar ou me matar.
Não sei em que momento dessa história toda a Pietra começou a reclamar para ficar na escola. O nível de reclamação aumentou a cada dia, até se tornar um "esperneio" histérico diante do portão da escola, com direito a agarrada de desespero no meu pescoço. Fiquei dilacerada e comecei a perguntar para à Patty - tia da Pietra na escolinha, por quem, antes da crise, ela era apaixonada, não querendo sair do seu colo quando eu chegava para buscá-la - o que estaria acontecendo. Ela não sabia me dizer e, confesso, comecei a desconfiar do que todos desconfiam imediatamente quando faço este relato: a Pietra estava sendo "mal tratada" na escola!!!!
Um dia em que a coisa já ia muito mal, no caminho da escola, falei: "vamos ver a tia Patty?", e a Pietra já começou a se debater e reclamar. Peguei ela no colo, e angustiada falei: "filha, você não vai me dizer o que está acontecendo com você na escola!?". E ela: "dinsddcvd dkigiv ldsppdf BATE doseseedfo egçbes CADEIRA". Entrei em pânico! "Meu deus! Estão batendo na minha filha com uma cadeira!". Quando cheguei à escola e a coordenadora me atendeu para pegar a Pietra, perguntei: "Bel, pelo amor de deus! O que está acontecendo com essa menina que ela está assim pra ficar na escola?". E ela: "Sabe o que eu acho que está acontecendo, Lú, ela está BATENDO muito nos amiguinhos, e nós a estamos repreendendo! Às vezes ela tem que ser tirada um pouquinho da brincadeira, fica sentadinha na CADEIRA, depois volta. E ela fica muito brava por ser repreendida!".
Fiquei muito aliviada e ao mesmo tempo achei o máximo que do jeitinho dela a minha filhinha de menos de 2 anos tivesse me contado o que acontecia com ela na escola. Fiquei confiante e achei que diante da minha segurança ela fosse voltando a ficar tranquila. Porém, isso não aconteceu, e o desespero dela aumentou, cada dia mais. E eu voltei a ficar apreensiva e, por mais que eu tente evitar, desconfiada de que algo de ruim está acontecendo com ela na escola. E isso me deixa em pânico, porque dentre as opções que eu tenho, perto da minha casa, que eu possa pagar, essa escola é a única que eu  realmente gostei.
Por outro lado, agora que estou aqui em Araraquara, na segurança da casa da minha mãe e me arrepio inteira quando penso em ter que voltar a São Paulo, em especial quando penso no caminho da escola da Pietra, também reflito que talvez ela só esteja reverberando o meu pânico despropositado. Talvez ela ainda seja, quase que literalmente, um pedaço de mim, manifestando, dentro das suas opções de linguagem, os mesmos sentimentos que eu estou vivenciando...