sexta-feira, 20 de julho de 2012

Brinquedo de artista

Acabei de olhar para o lado e ver a minha filha, que no momento tem 2 anos e meio, com uma caixinha de dvd no colo, dando tapinhas e dizendo "calma nenê, calma", pensei "coitadinha, ela não tem nem uma boneca pra brincar de nenê...".
Quase fui vencida pelo olhar do outro sobre mim. Através de mim mesma, o jeito "certo" de fazer as coisas me obriga a ir contra a minha fé, os meus valores, a minha coerência. Talvez por medo de alguém achar uma maldade não dar uma boneca que fala pra minha filhinha eu corresse numa loja de brinquedos super verdadeiros e comprasse um kit completo para salvá-la de se tornar uma criança estranha que transforma caixas de sapato em carrinhos e vidros de esmalte em coleguinhas da escola.
Tenho horror a bonecas que parecem nenê. Acho que herdei isso do meu pai, ele tinha um trauma de infância, pois alguém o ergueu pra ver uma criança morta em um caixão, quando ele tinha quatro anos. Então, toda boneca muito realista que ele via lembrava da imagem do nenê morto. Talvez de tanto ouvir ele contar essa história eu tenha desenvolvido uma certa aversão à imagem. A questão é que, sem querer, ou pelo menos sem pensar, eu nunca comprei uma boneca pra Pietra. E dia desses li em algum lugar (nem me lembro se era livro sério ou revista feminina) que tem alguma linha pedagógica alternativa (acho que é Waldorf) que critica os brinquedos realistas. Acho que era uma conferência do Rudolf Steiner em que ele falava que a criança que só brinca com coisas que copiam a realidade restringe sua capacidade de imaginar e simbolizar!
Será que é por isso que vivemos nesse mundo tão pobre de rituais e onde, cada vez mais, a arte vai se tornando um jogo fútil de representar o cotidiano para não perder ainda mais a popularidade?

quinta-feira, 5 de julho de 2012

"O Inferno são os Outros..."

Mãe leva bronca o tempo inteiro!
Todos sabem o que é melhor para o SEU filho, e sempre é algo diferente do que você está fazendo!
O seu filho, em algum momento da vida, vai ser mal educado, briguento, birrento, manhoso, mimado, escandaloso, e a culpa, sem dúvida, será sua!

Dá muita atenção!
Faz tudo o que quer!
Trabalha demais!
Ele fica muito na escola!
Ele tem que ir pra escola!
Convive muito com adulto!

Ele também vai ficar doente, vai se machucar, e você será a culpada!

Tomou friagem!
Entrou na piscina!
Não leva no médico!
Dá muito remédio!

Mãe saudável é aquela que aprende a ouvir todos os comentários, dicas e conselhos de forma lúdica!Quer dizer, que leva tudo em consideração, como alguém que assiste a um bom filme da sessão da tarde, e não se abala com nada! Finge que não entende as indiretas, as acusações, finge que não percebe a cara de espanto quando passa com o seu filho no sling, ou quando não coloca um gorro pra sair no vento, ou quando não dá antitérmico com febre de 39°, ou quando diz que não quer que o filho seja alfabetizado com 7 anos, ou quando afirma que na sua casa não tem muita rotina e que seu filho dorme, quase sempre, depois da meia-noite e acorda, quase sempre, depois das 11hs da manhã!

E não adianta relevar tudo isso com bom humor e uma leve indiferença se você não souber driblar o comentário de vitória que virá se um dia você por acaso reclamar que seu filho está muito agitado!

"Ah, mas também não tem hora pra nada, a criança precisa ter rotina, precisa saber o que vai acontecer, precisa seguir regras, precisa ter limites, precisa, precisa, precisa"

Talvez! Talvez a Pietra bata nos amiguinhos da escola porque ela não tem hora pra almoçar! E às vezes nem almoça!!! (agora eu passei dos limites, né!?) Sim, às vezes ela não almoça! Acorda muito tarde, não tem fome, come banana, toma leite, come um pão e vai pra escola! Será que isso a deixa irritada? Pode ser...

E também pode ser por não ter rotina que ela se adapta a todas as situações! Ela usa qualquer roupa, não chora pra acordar se precisa acordar cedo, dorme em qualquer lugar, brinca com qualquer criança, come de tudo, anda a pé, de carro, de metrô, de ônibus e de avião; e as manhas duram apenas alguns minutos! Eu e o Dani colocamos a Pietra "em baixo do braço" e vamos pra qualquer lugar! Eu não levo nada de diferente pra ela! Ela não tem chupeta, mamadeira, colherzinha, paninho, travesseirinho, lençolzinho, roupinha, brinquedo, boneca, livro, nada, absolutamente nada, que seja necessário!

Talvez seja a falta de rotina, de regras, de limites... e talvez não!

Mas certeza eu tenho de uma coisa: as mães seriam muito mais felizes - e os filhos também - se não vivessem a terrível ilusão de que têm o controle sobre quem seus filhos serão ou deixarão de ser!