sábado, 25 de janeiro de 2014

Puta! Preto! Mulherzinha!




Li, através do facebook, o texto do Leonardo Sakamoto: "Por que chamar alguém de gay ou lésbica ainda é uma ofensa?".

O artigo começa contando o caso de um menino que foi chamado de "Félix" (personagem do Mateus Solano na atual novela das 21h, Amor à Vida) pela professora e colegas de sala, em uma escola em Piracicaba (SP), depois debate a questão do título e finaliza com a manifestação do desejo de ver o dia em que discutir a opção sexual de alguém seja tão absurdo quanto questionar o tom do branco do olho de uma pessoa.

(achei a analogia completamente descabida, mas não é por isso que fiquei a refletir sobre o assunto... segue...).



Dia desses, minha filha de 03 anos apontou uma mulher na padaria, e feliz pela sua constatação certeira, ainda sem juízo de valores, disse, bem alto: "olha, mãe, aquela moça é gorda!!!"

Eu quase morri de vergonha e implorei para que ela não falasse das pessoas na rua, porque elas poderiam ficar chateadas!

Pietra ficou calada, com cara de quem refletia sem entender porque alguém gordo ficaria chateado em ser chamado de gordo!!!



Com o texto do Sakamoto, fiquei me perguntando se um gay se incomodaria em ser chamado de gay. Decidi que não, se isso não viesse em tom de ofensa. Talvez, alguém gordo também não ficasse chateado ao ser chamado de gordo por uma criança que não o está ofendendo, se ao redor não houvesse sempre um adulto que se constrange, ou ainda uma mãe envergonhadíssima que repreende a criança deixando claro para todos (e aos poucos para a própria criança) que se trata de algo desagradável de se dizer e que, portanto, ser gordo, é ruim!



Houve outra vez, logo que Pietra começou a falar, que pegamos um táxi e ela gritou, apontando o taxista: "ele não tem cabelo!!!". Aquilo foi tão espontâneo, que eu disse: "é filha, ele não tem!", e rimos todos, eu, ela e o taxista! Nesse momento não ensinamos Pietra que ser careca é uma coisa negativa digna de envergonhar quem o é! (O que certamente atrasou o seu processo de aprendizagem sobre conduta social, contribuindo com a ação que gerou o meu constrangimento diante da gorda da padaria!).



Mas o que me incomoda mesmo no texto do Sakamoto é que o menino chamado de gay talvez só tenha se ofendido porque não é gay, ou pelo menos porque não se reconhece como tal, e nesse sentido, penso que, tentando ser original ao abordar um assunto sobre o qual já se falou tanto, o autor do texto não se deu conta de que talvez seja sempre ofensivo chamar alguém do que não é ou não se identifica, independente do valor social positivo ou negativo que existe embutido naquela qualificação.



Pra mim, achar triste que um garoto que não se entende como gay se ofenda ao ser visto como tal pelos seus colegas de escola é tão bizarro quanto questionar que uma mulher fique irritada por ser chamada de senhor pela secretária do dentista, ou que um chinês se incomode por ser chamado de japonês pelos colegas de trabalho, ou ainda que um deficiente visual se chateie por não ter reconhecida a sua condição em um metrô lotado, tendo que permanecer em pé.

Porém, se a questão que o Sakamoto pretende discutir é o fato de "gay" ser considerado um xingamento, acho que o problema é mais amplo, e anterior: afinal, não é de se espantar que uma característica bem recentemente "aceita" seja alvo de discriminação numa sociedade em que condições há tempos (teoricamente) equalizadas continuam sendo adjetivos indesejáveis.

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