sexta-feira, 18 de julho de 2014

Imagens de um puerpério real



“Antes da família nuclear, quando vivíamos em grupos familiares maiores ou em tribos, a comunidade (de mulheres, geralmente) cuidava intensamente da nova mãe para que ela tivesse a força e o ânimo para cuidar do recém-nascido: massagens, refeições especiais, repouso e resguardo faziam parte desse rito de passagem. A mulher era, literalmente, banhada em afeto e suporte para, assim, nutrir o bebê. Hoje, mesmo com os homens muito mais envolvidos nas tarefas de cuidar, a mulher moderna tem somente uma ou duas (ou no máximo três) outras pessoas para ajudá-la: o companheiro e sua mãe e/ou sogra ou, às vezes, uma profissional contratada para ajudar (babá, enfermeira). E o problema não é só o número e sim a qualidade desse cuidado, que tende a ser pragmático, focado em tarefas relacionadas somente ao bebê. Não há muito espaço para as necessidades emocionais da mãe nessa nova configuração cultural; especialmente quando a própria mulher foge da vulnerabilidade, da incoerência, do intangível.”
Do texto “precisamos falar sobre o puerpério”, do blogue “A mãe que eu quero ser”.

Tenho encontrado muitos textos sobre o puerpério. Antes já havia lido tantos outros sobre parto.
Parece que esses são os dois momentos mais críticos da maternidade... para a mãe, é claro. Muito mais, inclusive, do que a gestação, que costuma ser considerada a etapa mais difícil e que demanda maiores cuidados, mas não é!!! (a não ser em casos excepcionais de gravidez de risco).
Acho muito bom perceber a expansão de um pensamento que valoriza o parto natural, sem intervenções médicas desnecessárias. Também acho maravilhoso perceber que muitas pessoas defendem que o pós-parto deve ser um momento de cuidados especiais com a mãe.
Porém, ao me aproximar de grupos que defendem tais ideias, percebo que, muitas vezes, o que se defende, na teoria, está longe de ser praticado.
Tenho pensado muito na frase de uma amiga que abandonou um grupo de militância do parto humanizado, cansada do quase “fundamentalismo” exercido pelas suas companheiras: “não quero mais defender as mulheres que querem um parto natural, quero lutar pelas mulheres, em geral!”.
Acho que é esse o ponto. Somos cada vez mais seres fracionados. Defensores extremos de causas e ideais restritos. E assim vamos perdendo a dimensão do todo.
Viver, hoje, é um parto (cesáreo). E a nossa sociedade é formada por mães em puerpério.
Somos cada vez mais individualistas e solitários.
Vivemos rotinas massacrantes, pré-determinadas por estruturas e sistemas que não nos agradam, somos dependentes de instituições que nos exploram e nos tornam impotentes.
Estamos todos infelizes, com dores terríveis na alma, lotando os consultórios psicológicos e postando fotos alegres nas redes sociais.
Queremos ser cuidados, queremos atenção, queremos reconhecimento, mas não estamos dispostos a cuidar, atender, reconhecer...
Criticamos os políticos, corruptos, e continuamos sonegando impostos (das maneiras mais diversas possíveis).
Falamos mal do trânsito e da poluição, mas ainda nos apinhamos nos grandes centros urbanos e não deixamos o carro na garagem (ou na concessionária) para enfrentarmos corajosamente o transporte público.
Postamos fotos elogiosas do presidente do Uruguai sentado na fila de espera de um hospital público e assinamos abaixo-assinados para que os políticos brasileiros sejam obrigados a manter seus filhos em colégios do governo, mas não abrimos mão dos nossos pomposos planos de saúde e nem sequer cogitamos a possibilidade de conhecer uma CEI ou uma EMEI no momento de iniciarmos a vida escolar de nossos rebentos.
Ficamos indignados com a forma como somos tratadas quando decidimos por um parto natural, mas esculachamos com violência a vizinha que decidiu fazer uma cesariana.
Não queremos ouvir palpites sobre as nossas escolhas na educação das crianças, mas temos todas as verdades do mundo na ponta da língua para criticar os que agem de forma diferente da nossa crença.
Não são as mães no pós-parto que ficam desamparadas e são cobradas a se mostrarem dispostas e felizes. Essa é a realidade de todos nós. Se assim não fosse, diante de um quadro social tão medonho, com crianças passando fome, mulheres grávidas fumando crack nas esquinas, orfanatos lotados, recém-nascidos encontrados em latas de lixo, famílias com 10 crianças morando em casebres em barrancos deslizantes; e também meninos e meninas das classes mais abastadas passando horas em frente à TV; ou em escolas muito pouco preocupadas com a educação de verdade, mesmo que sejam super bem estruturadas e ofereçam milhões de atividades extra-curriculares; ou ainda, em suas casas, cuidados por profissionais insatisfeitos e mal remunerados... enfim, diante dessa tragédia que se configura estaríamos menos preocupados, como sociedade, em pensar caminhos melhores para gerar filhos e mais em buscar maneiras de cuidar daqueles que já geramos.
Penso que não preciso dizer que não estou contra os que pensam estes caminhos, muito menos os que os percorrem e auxiliam, na prática, outras mulheres a os trilharem.
Apenas gostaria de encontrar sites, blogues, listas de discussão, grupos de atuação que não apenas criticassem a sociedade que não ampara o indivíduo, mas antes visassem uma sociedade verdadeiramente preocupada com o coletivo. Afinal, qual indivíduo, em especial, deve ser amparado? Quem são os indivíduos que formam esse coletivo que ampara e quem ampara tais indivíduos?  Será que a única saída para o fim do individualismo que nos agride a todos não é deixarmos de achar que nós somos os indivíduos que precisam ser amparados pelo coletivo, enquanto os outros indivíduos são egoístas e terríveis porque não NOS amparam? Afinal, me perdoem se estou sendo generalista, sites e blogues que se revoltam contra a falta de amparo às mães no puerpério, por exemplo, são escritos, frequentados, comentados e compartilhados por mães no puerpério ou que tenham recentemente saído dele, não?
Quando vamos parar de reclamar os nossos direitos individuais, quando vamos parar de falar de nós mesmos e começar a, de fato lutar pelo bem COMUM?
Que tal começarmos a pensar em caminhos reais de estímulo à adoção de crianças por todas as pessoas que puderem, e não apenas por pessoas que não possam ter filhos? – e que também não “precisam” mais adotar, pois hoje a medicina permite que as mulheres gerem por diversos caminhos artificiais, o que tantas vezes decorre em gestações de alto risco e crianças com sérios problemas de saúde... Ou criarmos redes de amamentação, em que mulheres com muito leite possam amamentar outras crianças cujas mães, por qualquer motivo, não possam amamentar, ao invés de apenas mantermos bancos de leite, frios e impessoais? – afinal, os benefícios emocionais da amamentação são tão ou mais fundamentais para o bebê do que os benefícios físicos; Ou que tal formarmos comunidades de pessoas que sejam voluntárias em auxiliar mães recém-paridas, nos cuidados com a casa, com o bebê, e principalmente em ações que a façam ter certeza de que a responsabilidade sobre aquela vida que nasce não é só dela? Ou cooperativas de mães e PAIS que se revezem em cuidar de crianças pequenas, para que todos possam atender às outras demandas da vida sem ter que recorrer a escolas? Ou grupos familiares de “motoristas” amadores que ofereçam transporte a mães e pais que não tenham carro e precisem levar os filhos a lugares de difícil acesso para receberem tratamento médico? Ou... ou... ou...
Gostaria de encontrar parceiros para ações como essas...

Eu não quero defender as mulheres, quero lutar pelo ser humano.


E não quero fazê-lo nos discursos, nos grupos de militância, nas manifestações, nas redes sociais, e sim na minha prática cotidiana.


4 comentários:

  1. Luísa, adoro suas reflexões, que sempre me fazem aprofundar ou questionar as minhas próprias, como você fez aqui.
    Fiquei pensando que o que me incomoda nesse tema que você expos não é tanto o fato de as pessoas lutarem A FAVOR de pequenos grupos. Entendo que seja importante lutar por essas chamadas “minorias”, porque há uma desingualdade social, uma dívida social com determinados grupos de pessoas que precisa ser modificada. Isso é óbvio, todos nós sabemos disso. E se há uma luta PELO OUTRO ela já não é, por definição, individualista. O individualismo diz respeito exclusivamente ao indivíduo e ponto. Então, não importa muito se minha luta é por metade da população mundial (as mulheres) ou pela meia dúzia de pessoas que moram no mesmo quarteirão que eu e precisam enfrentar um problema específico. Até porque as lutas coletivas só se realizam se há um sentido pessoal em cada sujeito que empreende essas lutas. É natural que as mulheres no puerpério pensem em outras mulheres que vivem a mesma situação que a sua e queiram melhorar a vida de todas as outras mulheres que passam pela mesma experiência. Isso não é individualismo, muito ao contrário, isso só pode ocorrer com quem tem uma preocupação que vai além de seu próprio umbigo. A luta coletiva não está (não teria como estar) distante da experiência pessoal de cada um que luta pelo coletivo. Se há pessoas que lutam pelo parto humanizado, se eu luto pelas mulheres e você pelo ser humano é porque cada um de nós construiu, com sua experiência pessoal, um sentido único para essas lutas. E há espaço para tudo isso e todas essas lutas são importantes.
    O problema, na minha opinião, e acho que com isso me aproximo da sua argumentação e concordo com ela, é o lutar CONTRA determinado grupo ao invés de lutar a favor de todos nós. É defender o parto normal e execrar as mulheres que fazem cesárea, é defender as mulheres no puerpério e maltratar a empregada doméstica. É essa incoerência que você expõe muito bem dos que criticam o outro e exigem do outro aquilo que eles próprios não fazem. Então, o problema dessas militâncias não é defender “as minorias”. Porque as minorias precisam mesmo de maior defesa, tem mais urgência porque sofrem mais com as relações de dominação, preconceito e discriminação. O problema não é também fazê-lo em função de uma identificação pessoal, porque é justamente a identificação pessoal que alimenta as lutas coletivas e cria as possibilidades de fazê-lo com criatividade, que acho que é também o que você propõe, mesmo que não utilize essa palavra. O problema é empreender essa defesa na perspectiva de inverter os papeis e não de desconstruir as relações de dominação. Fazer a defesa da minoria com a qual me identifico execrando os que são diferentes de mim. Acho que é isso que você está defendendo, não é? Não basta combater a violência contra a mulher, é preciso construir uma cultura da paz em que a violência contra qualquer ser humano seja combatida. Se a luta pelo coletivo não for o ideal a ser perseguido, as lutas pelas minorias (que são parte importante do processo de mudar o todo) não fazem sentido.
    Então, continuemos lutando, elas pelo parto humanizado, eu pelas mulheres e, aí sim, concordo contigo, todos nós pelo ser humano. Lutemos não contra as mulheres que fazem cesárea e nem contra os homens, mas pela construção de uma sociedade menos individualista, mais justa e igualitária. Conte comigo para ser sua parceira nessas ações cotidianas.

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    1. Sim, o problema não é lutar pela minoria, mas "empreender essa luta na perspectiva de inverter os papéis e não de descontruir as relações de dominação".
      A questão é que, além disso, essa luta pela minoria tem alguma coisa que não me convence... sinto que, muitas vezes, nos grupos de militância, não se pretende, de fato, lutar pelo outro, mas sim impor uma receita que, para quem propõe, é o melhor para o outro.
      Ninguém de fato pergunta ao outro: do que vc precisa? o que eu posso fazer por você?
      É como se não existisse de fato uma preocupação com o outro e sim um ressentimento, uma dor por não ter recebido, pessoalmente, aquilo de que se acreditava merecedor; e aí a militância vira uma forma mascarada (a máscara nobre da luta coletiva) de expressar a revolta, aí vc quer impor a todos os que estão em situações análagos a sua aquilo que vc queria ter recebido... entende?
      se a luta é pelo outro, vc escuta o outro, vc deixa o outro dizer do que ele precisa, e o tentar ajudá-lo a conseguir isso...
      (vc leu o texto do pediatra no texto do blogue que citei no começo do meu texto? eu compartilhei com vc também)

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  2. Mas, para além de todos os clichês que eu mencionei acima, entendo sua crítica e ela não é senão a expressão da nossa velha conhecida (e tão desejada quanto temida) coerência: não adianta nada defender publicamente discursos igualitários se não mudarmos, no cotidiano, na nossa vida pessoal, as atitudes que perpetuam o contrário disso. De qualquer modo, se esta é de fato sua argumentação, eu ainda acho que, como seres humanos, falíveis, mas ao mesmo tempo, reflexivos e racionais, podemos sim defender um ideal que pessoalmente não alcançamos se estivermos, genuinamente, buscando alcançar esse ideal. Pode ser que nunca consigamos e isso não desqualifica nossa luta que é, por definição, busca, construção, processo. O que não dá é pra compactuar com a hipocrisia descarada.

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    1. sim, também acho que podemos defender os ideais que acreditamos mas não conseguimos atingir. eu faço isso o tempo todo, inclusive!! !haahhahahaha
      mas o que eu acho é que nos escusamos de pensar de fato nos motivos que não nos permite atingir... não queremos assumir que não temos coragem e nem vontade de fazer o que realmente devíamos fazer para mudar algo...

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