Hoje de manhã fui escovar os
dentes da Pietra e notei que a pasta de dentes estava quase acabando. Lancei:
minha filha, acho que você está colocando pasta demais na escova, lá na escola,
para escovar os dentes. E ela: não mãe, é que eu empresto pros meus amigos que
não têm pasta. Eu tive que morder a língua para não retrucar: como assim, minha
filha, dessa forma eu vou ter que comprar uma pasta por dia!
Nesse momento histórico em que o
Brasil vive, quando a polarização do poder, marcada pela luta explícita entre o
PT e o PSDB na disputa pela presidência nacional, evidencia a existência de
duas ideologias opostas que, pela primeira vez na história do nosso país,
encontram forças iguais para se emparelharem, sinto um verdadeiro orgulho ao
perceber que estou conseguindo tornar naturais, para a minha filha, valores
que, para mim, ainda são teóricos e que, para serem praticados, precisam ser
cotidianamente forjados, com disciplina e verdadeiro desejo de mudança!
Somente após 12 anos de um
governo de esquerda (sim, o PT ainda representa a esquerda no Brasil, que me
perdoem os radicais esquerdistas!) começamos a sentir, verdadeiramente, as
consequências de políticas públicas que, de fato, atuam sobre a mudança de um
paradigma social. Enfim, saímos do mapa da fome. Enfim, milhares de brasileiros
saíram da miséria absoluta. Enfim, tornou-se possível para muitos ter uma casa
para morar. Enfim, a luz elétrica chegou a lugares totalmente abandonados até
então. Enfim, pessoas não morrem de malária, ou doenças combatíveis com
tratamentos simples, pois recebem, ao menos, um atendimento médico básico. Enfim,
brasileiros que nunca imaginaram sequer terminar o ensino médio, podem se
profissionalizar através das escolas técnicas e universidades que se tornaram
acessíveis a eles.
E diante dessas mudanças, reais,
evidencia-se, como nunca antes, as consequências ideológicas de um país cuja
base formativa é a política de colonização!
Estamos sofrendo. Sem saber muito
bem porquê, clamamos por mudança, sem assumir a evidência de que a mudança que
queremos é o retorno ao que vivíamos antes. Não queremos continuar. Estamos com
medo de seguir no caminho da igualdade. Passamos séculos sendo educados a ter
coisas, garantindo a distância da miséria que, ameaçadora, nos rodeava.
Acreditando que o sucesso e, consequentemente, a felicidade estava em adquirir
bens privados. E ensinando os nossos filhos a conservar e multiplicar sua
herança pessoal.
Somos doadores de restos.
Participamos de campanhas sociais em que entregamos as roupas velhas, a comida
barata, os livros que não nos interessam mais, a esmola que não nos fará falta
para a manutenção e elevação do nosso padrão de vida.
Não aprendemos a compartilhar o
que temos de melhor. Não queremos nos desfazer do que é nosso. Viver como os
pobres, dependendo do que é público-e-inferior, ao invés de ter o privilégio da
“qualidade” do que é privado. Ficamos assustados diante da possibilidade de
perdermos os parâmetros de comparação que sempre nos guiaram na definição do
nosso valor social e, consequentemente, na garantia da nossa auto-estima
burguesa. Se não houver mais pobres (e, consequentemente, não houver mais ricos),
eu não posso mais ser classe média!
Quem sou eu, então?
Os argumentos de uma quase
maioria que clama por “mudança” são frágeis e desesperados. Mal escondem o
subtexto: “sempre foi assim, o que vamos fazer agora!?”. Me fazem pensar numa
fala do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, sobre os paulistanos desejarem
a revolução desde que não se mexa em nada. Mudar é difícil. E a mudança de
valores sociais, arraigados de maneira ontológica no seio da sociedade,
simbolizam a morte dessa sociedade. E evitar a morte é instinto de
sobrevivência. Pelo menos nos animais... nos humanos, poderia ser visto como
primitivismo intelectual... Afinal, já simbolizamos a morte para o renascimento
em mitos muito antigos. Mas negamos a Fênix e seguimos apegados ao que sempre
fomos, mesmo que não nos agrade tanto assim...
Diante de uma possível vitória de
Aécio nas urnas, me resta continuar a minha luta diária, de ensinar a minha
filha coisas que eu não sei. Ou, pelo menos, de evitar que ela aprenda o que me
foi ensinado. Talvez não estejamos mesmo prontos. Ainda precisamos nos recolher
em nossas propriedades e nos salvar da dissolução do eu que nos parece ser o
compartilhamento da riqueza comum. E quem sabe um dia possamos pensar em uma
disputa presidenciável em que seja possível se falar, por exemplo, em reforma (agrária, mas não só) – uma das principais bandeiras do PT em seus primórdios, que foi sendo
apagada pelo marketing político, encoberta por discursos de favorecimento da
economia, visando a estruturação de um país competitivo no cenário do
capitalismo mundial, que seduziram o eleitorado brasileiro até que as políticas
públicas de redução da pobreza começaram a se evidenciar e reacenderam uma
pequena e apavorante luz do comunismo.
Por hora, ignorando Paulo Freire
e a sua busca por uma educação libertadora, seguimos oprimidos e com a
esperança de ascendermos a opressores. E vamos reproduzindo o sistema
colonizador que nos fundou. Mas distantes das esferas da política oficial, quem
sabe consigamos educar os nossos filhos para que tenham a coragem de viver a
morte que repudiamos e iniciar a vida que vislumbramos, mas não fomos capazes
de concretizar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário