terça-feira, 21 de outubro de 2014

A política nossa de cada dia...

Hoje de manhã fui escovar os dentes da Pietra e notei que a pasta de dentes estava quase acabando. Lancei: minha filha, acho que você está colocando pasta demais na escova, lá na escola, para escovar os dentes. E ela: não mãe, é que eu empresto pros meus amigos que não têm pasta. Eu tive que morder a língua para não retrucar: como assim, minha filha, dessa forma eu vou ter que comprar uma pasta por dia!

Nesse momento histórico em que o Brasil vive, quando a polarização do poder, marcada pela luta explícita entre o PT e o PSDB na disputa pela presidência nacional, evidencia a existência de duas ideologias opostas que, pela primeira vez na história do nosso país, encontram forças iguais para se emparelharem, sinto um verdadeiro orgulho ao perceber que estou conseguindo tornar naturais, para a minha filha, valores que, para mim, ainda são teóricos e que, para serem praticados, precisam ser cotidianamente forjados, com disciplina e verdadeiro desejo de mudança!

Somente após 12 anos de um governo de esquerda (sim, o PT ainda representa a esquerda no Brasil, que me perdoem os radicais esquerdistas!) começamos a sentir, verdadeiramente, as consequências de políticas públicas que, de fato, atuam sobre a mudança de um paradigma social. Enfim, saímos do mapa da fome. Enfim, milhares de brasileiros saíram da miséria absoluta. Enfim, tornou-se possível para muitos ter uma casa para morar. Enfim, a luz elétrica chegou a lugares totalmente abandonados até então. Enfim, pessoas não morrem de malária, ou doenças combatíveis com tratamentos simples, pois recebem, ao menos, um atendimento médico básico. Enfim, brasileiros que nunca imaginaram sequer terminar o ensino médio, podem se profissionalizar através das escolas técnicas e universidades que se tornaram acessíveis a eles.

E diante dessas mudanças, reais, evidencia-se, como nunca antes, as consequências ideológicas de um país cuja base formativa é a política de colonização!

Estamos sofrendo. Sem saber muito bem porquê, clamamos por mudança, sem assumir a evidência de que a mudança que queremos é o retorno ao que vivíamos antes. Não queremos continuar. Estamos com medo de seguir no caminho da igualdade. Passamos séculos sendo educados a ter coisas, garantindo a distância da miséria que, ameaçadora, nos rodeava. Acreditando que o sucesso e, consequentemente, a felicidade estava em adquirir bens privados. E ensinando os nossos filhos a conservar e multiplicar sua herança pessoal.

Somos doadores de restos. Participamos de campanhas sociais em que entregamos as roupas velhas, a comida barata, os livros que não nos interessam mais, a esmola que não nos fará falta para a manutenção e elevação do nosso padrão de vida.

Não aprendemos a compartilhar o que temos de melhor. Não queremos nos desfazer do que é nosso. Viver como os pobres, dependendo do que é público-e-inferior, ao invés de ter o privilégio da “qualidade” do que é privado. Ficamos assustados diante da possibilidade de perdermos os parâmetros de comparação que sempre nos guiaram na definição do nosso valor social e, consequentemente, na garantia da nossa auto-estima burguesa. Se não houver mais pobres (e, consequentemente, não houver mais ricos), eu não posso mais ser classe média! Quem sou eu, então?

Os argumentos de uma quase maioria que clama por “mudança” são frágeis e desesperados. Mal escondem o subtexto: “sempre foi assim, o que vamos fazer agora!?”. Me fazem pensar numa fala do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, sobre os paulistanos desejarem a revolução desde que não se mexa em nada. Mudar é difícil. E a mudança de valores sociais, arraigados de maneira ontológica no seio da sociedade, simbolizam a morte dessa sociedade. E evitar a morte é instinto de sobrevivência. Pelo menos nos animais... nos humanos, poderia ser visto como primitivismo intelectual... Afinal, já simbolizamos a morte para o renascimento em mitos muito antigos. Mas negamos a Fênix e seguimos apegados ao que sempre fomos, mesmo que não nos agrade tanto assim...

Diante de uma possível vitória de Aécio nas urnas, me resta continuar a minha luta diária, de ensinar a minha filha coisas que eu não sei. Ou, pelo menos, de evitar que ela aprenda o que me foi ensinado. Talvez não estejamos mesmo prontos. Ainda precisamos nos recolher em nossas propriedades e nos salvar da dissolução do eu que nos parece ser o compartilhamento da riqueza comum. E quem sabe um dia possamos pensar em uma disputa presidenciável em que seja possível se falar, por exemplo, em reforma (agrária, mas não só) – uma das principais bandeiras do PT em seus primórdios, que foi sendo apagada pelo marketing político, encoberta por discursos de favorecimento da economia, visando a estruturação de um país competitivo no cenário do capitalismo mundial, que seduziram o eleitorado brasileiro até que as políticas públicas de redução da pobreza começaram a se evidenciar e reacenderam uma pequena e apavorante luz do comunismo.


Por hora, ignorando Paulo Freire e a sua busca por uma educação libertadora, seguimos oprimidos e com a esperança de ascendermos a opressores. E vamos reproduzindo o sistema colonizador que nos fundou. Mas distantes das esferas da política oficial, quem sabe consigamos educar os nossos filhos para que tenham a coragem de viver a morte que repudiamos e iniciar a vida que vislumbramos, mas não fomos capazes de concretizar. 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Imagens de um puerpério real



“Antes da família nuclear, quando vivíamos em grupos familiares maiores ou em tribos, a comunidade (de mulheres, geralmente) cuidava intensamente da nova mãe para que ela tivesse a força e o ânimo para cuidar do recém-nascido: massagens, refeições especiais, repouso e resguardo faziam parte desse rito de passagem. A mulher era, literalmente, banhada em afeto e suporte para, assim, nutrir o bebê. Hoje, mesmo com os homens muito mais envolvidos nas tarefas de cuidar, a mulher moderna tem somente uma ou duas (ou no máximo três) outras pessoas para ajudá-la: o companheiro e sua mãe e/ou sogra ou, às vezes, uma profissional contratada para ajudar (babá, enfermeira). E o problema não é só o número e sim a qualidade desse cuidado, que tende a ser pragmático, focado em tarefas relacionadas somente ao bebê. Não há muito espaço para as necessidades emocionais da mãe nessa nova configuração cultural; especialmente quando a própria mulher foge da vulnerabilidade, da incoerência, do intangível.”
Do texto “precisamos falar sobre o puerpério”, do blogue “A mãe que eu quero ser”.

Tenho encontrado muitos textos sobre o puerpério. Antes já havia lido tantos outros sobre parto.
Parece que esses são os dois momentos mais críticos da maternidade... para a mãe, é claro. Muito mais, inclusive, do que a gestação, que costuma ser considerada a etapa mais difícil e que demanda maiores cuidados, mas não é!!! (a não ser em casos excepcionais de gravidez de risco).
Acho muito bom perceber a expansão de um pensamento que valoriza o parto natural, sem intervenções médicas desnecessárias. Também acho maravilhoso perceber que muitas pessoas defendem que o pós-parto deve ser um momento de cuidados especiais com a mãe.
Porém, ao me aproximar de grupos que defendem tais ideias, percebo que, muitas vezes, o que se defende, na teoria, está longe de ser praticado.
Tenho pensado muito na frase de uma amiga que abandonou um grupo de militância do parto humanizado, cansada do quase “fundamentalismo” exercido pelas suas companheiras: “não quero mais defender as mulheres que querem um parto natural, quero lutar pelas mulheres, em geral!”.
Acho que é esse o ponto. Somos cada vez mais seres fracionados. Defensores extremos de causas e ideais restritos. E assim vamos perdendo a dimensão do todo.
Viver, hoje, é um parto (cesáreo). E a nossa sociedade é formada por mães em puerpério.
Somos cada vez mais individualistas e solitários.
Vivemos rotinas massacrantes, pré-determinadas por estruturas e sistemas que não nos agradam, somos dependentes de instituições que nos exploram e nos tornam impotentes.
Estamos todos infelizes, com dores terríveis na alma, lotando os consultórios psicológicos e postando fotos alegres nas redes sociais.
Queremos ser cuidados, queremos atenção, queremos reconhecimento, mas não estamos dispostos a cuidar, atender, reconhecer...
Criticamos os políticos, corruptos, e continuamos sonegando impostos (das maneiras mais diversas possíveis).
Falamos mal do trânsito e da poluição, mas ainda nos apinhamos nos grandes centros urbanos e não deixamos o carro na garagem (ou na concessionária) para enfrentarmos corajosamente o transporte público.
Postamos fotos elogiosas do presidente do Uruguai sentado na fila de espera de um hospital público e assinamos abaixo-assinados para que os políticos brasileiros sejam obrigados a manter seus filhos em colégios do governo, mas não abrimos mão dos nossos pomposos planos de saúde e nem sequer cogitamos a possibilidade de conhecer uma CEI ou uma EMEI no momento de iniciarmos a vida escolar de nossos rebentos.
Ficamos indignados com a forma como somos tratadas quando decidimos por um parto natural, mas esculachamos com violência a vizinha que decidiu fazer uma cesariana.
Não queremos ouvir palpites sobre as nossas escolhas na educação das crianças, mas temos todas as verdades do mundo na ponta da língua para criticar os que agem de forma diferente da nossa crença.
Não são as mães no pós-parto que ficam desamparadas e são cobradas a se mostrarem dispostas e felizes. Essa é a realidade de todos nós. Se assim não fosse, diante de um quadro social tão medonho, com crianças passando fome, mulheres grávidas fumando crack nas esquinas, orfanatos lotados, recém-nascidos encontrados em latas de lixo, famílias com 10 crianças morando em casebres em barrancos deslizantes; e também meninos e meninas das classes mais abastadas passando horas em frente à TV; ou em escolas muito pouco preocupadas com a educação de verdade, mesmo que sejam super bem estruturadas e ofereçam milhões de atividades extra-curriculares; ou ainda, em suas casas, cuidados por profissionais insatisfeitos e mal remunerados... enfim, diante dessa tragédia que se configura estaríamos menos preocupados, como sociedade, em pensar caminhos melhores para gerar filhos e mais em buscar maneiras de cuidar daqueles que já geramos.
Penso que não preciso dizer que não estou contra os que pensam estes caminhos, muito menos os que os percorrem e auxiliam, na prática, outras mulheres a os trilharem.
Apenas gostaria de encontrar sites, blogues, listas de discussão, grupos de atuação que não apenas criticassem a sociedade que não ampara o indivíduo, mas antes visassem uma sociedade verdadeiramente preocupada com o coletivo. Afinal, qual indivíduo, em especial, deve ser amparado? Quem são os indivíduos que formam esse coletivo que ampara e quem ampara tais indivíduos?  Será que a única saída para o fim do individualismo que nos agride a todos não é deixarmos de achar que nós somos os indivíduos que precisam ser amparados pelo coletivo, enquanto os outros indivíduos são egoístas e terríveis porque não NOS amparam? Afinal, me perdoem se estou sendo generalista, sites e blogues que se revoltam contra a falta de amparo às mães no puerpério, por exemplo, são escritos, frequentados, comentados e compartilhados por mães no puerpério ou que tenham recentemente saído dele, não?
Quando vamos parar de reclamar os nossos direitos individuais, quando vamos parar de falar de nós mesmos e começar a, de fato lutar pelo bem COMUM?
Que tal começarmos a pensar em caminhos reais de estímulo à adoção de crianças por todas as pessoas que puderem, e não apenas por pessoas que não possam ter filhos? – e que também não “precisam” mais adotar, pois hoje a medicina permite que as mulheres gerem por diversos caminhos artificiais, o que tantas vezes decorre em gestações de alto risco e crianças com sérios problemas de saúde... Ou criarmos redes de amamentação, em que mulheres com muito leite possam amamentar outras crianças cujas mães, por qualquer motivo, não possam amamentar, ao invés de apenas mantermos bancos de leite, frios e impessoais? – afinal, os benefícios emocionais da amamentação são tão ou mais fundamentais para o bebê do que os benefícios físicos; Ou que tal formarmos comunidades de pessoas que sejam voluntárias em auxiliar mães recém-paridas, nos cuidados com a casa, com o bebê, e principalmente em ações que a façam ter certeza de que a responsabilidade sobre aquela vida que nasce não é só dela? Ou cooperativas de mães e PAIS que se revezem em cuidar de crianças pequenas, para que todos possam atender às outras demandas da vida sem ter que recorrer a escolas? Ou grupos familiares de “motoristas” amadores que ofereçam transporte a mães e pais que não tenham carro e precisem levar os filhos a lugares de difícil acesso para receberem tratamento médico? Ou... ou... ou...
Gostaria de encontrar parceiros para ações como essas...

Eu não quero defender as mulheres, quero lutar pelo ser humano.


E não quero fazê-lo nos discursos, nos grupos de militância, nas manifestações, nas redes sociais, e sim na minha prática cotidiana.


sábado, 25 de janeiro de 2014

Puta! Preto! Mulherzinha!




Li, através do facebook, o texto do Leonardo Sakamoto: "Por que chamar alguém de gay ou lésbica ainda é uma ofensa?".

O artigo começa contando o caso de um menino que foi chamado de "Félix" (personagem do Mateus Solano na atual novela das 21h, Amor à Vida) pela professora e colegas de sala, em uma escola em Piracicaba (SP), depois debate a questão do título e finaliza com a manifestação do desejo de ver o dia em que discutir a opção sexual de alguém seja tão absurdo quanto questionar o tom do branco do olho de uma pessoa.

(achei a analogia completamente descabida, mas não é por isso que fiquei a refletir sobre o assunto... segue...).



Dia desses, minha filha de 03 anos apontou uma mulher na padaria, e feliz pela sua constatação certeira, ainda sem juízo de valores, disse, bem alto: "olha, mãe, aquela moça é gorda!!!"

Eu quase morri de vergonha e implorei para que ela não falasse das pessoas na rua, porque elas poderiam ficar chateadas!

Pietra ficou calada, com cara de quem refletia sem entender porque alguém gordo ficaria chateado em ser chamado de gordo!!!



Com o texto do Sakamoto, fiquei me perguntando se um gay se incomodaria em ser chamado de gay. Decidi que não, se isso não viesse em tom de ofensa. Talvez, alguém gordo também não ficasse chateado ao ser chamado de gordo por uma criança que não o está ofendendo, se ao redor não houvesse sempre um adulto que se constrange, ou ainda uma mãe envergonhadíssima que repreende a criança deixando claro para todos (e aos poucos para a própria criança) que se trata de algo desagradável de se dizer e que, portanto, ser gordo, é ruim!



Houve outra vez, logo que Pietra começou a falar, que pegamos um táxi e ela gritou, apontando o taxista: "ele não tem cabelo!!!". Aquilo foi tão espontâneo, que eu disse: "é filha, ele não tem!", e rimos todos, eu, ela e o taxista! Nesse momento não ensinamos Pietra que ser careca é uma coisa negativa digna de envergonhar quem o é! (O que certamente atrasou o seu processo de aprendizagem sobre conduta social, contribuindo com a ação que gerou o meu constrangimento diante da gorda da padaria!).



Mas o que me incomoda mesmo no texto do Sakamoto é que o menino chamado de gay talvez só tenha se ofendido porque não é gay, ou pelo menos porque não se reconhece como tal, e nesse sentido, penso que, tentando ser original ao abordar um assunto sobre o qual já se falou tanto, o autor do texto não se deu conta de que talvez seja sempre ofensivo chamar alguém do que não é ou não se identifica, independente do valor social positivo ou negativo que existe embutido naquela qualificação.



Pra mim, achar triste que um garoto que não se entende como gay se ofenda ao ser visto como tal pelos seus colegas de escola é tão bizarro quanto questionar que uma mulher fique irritada por ser chamada de senhor pela secretária do dentista, ou que um chinês se incomode por ser chamado de japonês pelos colegas de trabalho, ou ainda que um deficiente visual se chateie por não ter reconhecida a sua condição em um metrô lotado, tendo que permanecer em pé.

Porém, se a questão que o Sakamoto pretende discutir é o fato de "gay" ser considerado um xingamento, acho que o problema é mais amplo, e anterior: afinal, não é de se espantar que uma característica bem recentemente "aceita" seja alvo de discriminação numa sociedade em que condições há tempos (teoricamente) equalizadas continuam sendo adjetivos indesejáveis.